The Jazz Singer

A matéria abaixo é de autoria de João Máximo na capa do Segundo Caderno de O Globo desta terça-feira, 07 de novembro de 2006. O fonte foi diminuído a fim de tornar o post um pouco menor.

A Volta do Cantor de Jazz
(João Máximo)

Al Jolson morreu em 1950 e desde então pouco se fala dele. Sua voz ainda é ouvida incidentalmente nas trilhas sonoras de alguns filmes, os mais recentes dos quais “King Kong” e “O aviador”, mas quem notou? Uma ou outra das poucas canções cuja letra escreveu, em especial “Avalon”, de 1920, ainda são usadas no cinema, geralmente quando se quer marcar a época em que se passa a história. Há vários CDs seus nas lojas, mas qual cantor americano, por mais antigo que seja, não está no mesmo caso? Artistas de diferentes tendências (Judy Garland, Elvis Presley, David Bowie, Sacha Distel, Mick Jagger) já atribuíram à influência dele muito de seus estilos no palco, mas é pouco provável que os respectivos fãs saibam disso. Há exatamente dez anos estreou em Londres o musical biográfico “Jolson”, com Brian Conley no papel-título, mas ficou tão pouco tempo em cartaz que os produtores desistiram de atravessar o Atlântico com ele. Enfim, o outrora proclamado “the world’s greatest entertainer” perdeu há muito o apelo que o fez bater recordes de bilheteria, vender milhões de discos e ser, em seu tempo, fenômeno de popularidade proporcionalmente igual ao que seriam Frank Sinatra, nos anos 40, Elvis Presley, nos 50, e os Beatles, nos 60.

Diretor de distribuidora é o responsável pelos DVDs

Todo esse nariz-de-cera é para justificar três perguntas:

1. Por que estão sendo lançadas no Brasil duas caixas, de quatro DVDs cada, com oito dos nove primeiros filmes estrelados por Al Jolson?

2. Por que não completar a série dos nove primeiros justamente com o melhor deles, o sexto, “Venturoso vagabundo/Hallelujah, I’m a bum” (1933), único já ou ainda em catálogo nos Estados Unidos (US$ 7,97 na Amazon)?

3. Uma vez que, dos oito filmes, apenas o primeiro, “O cantor de jazz/The jazz singer” (1927), já saiu em DVD nos Estados Unidos ou na Europa, sendo hoje peça rara de colecionador (US$ 149,99 na Amazon), qual terá sido a matriz das edições brasileiras?

Quem responde é Delvan Lourenço, diretor de programação da Continental, lançadora do inusitado pacote:

— Sou fã de Al Jolson. Soube que seus filmes já são de domínio público e que a Warner americana não tinha interesse em reeditálos, por temer uma reação negativa à imagem de racista que, ao que parece, ainda é ligada a ele.

A segunda pergunta é respondida com a informação de que “Venturoso vagabundo” é o próximo lançamento. Quanto à terceira, Lourenço conta ter encontrado originais dos filmes na Biblioteca do Congresso, em Washington, obtendo permissão para convertêlos em DVD.

Outros cantores também usavam o “blackface”

O detalhe do racismo realmente procede. O apogeu de Jolson deuse nos anos 1910 e 20, sobretudo nestes, quando foi a principal atração dos shows de variedades produzidos pelos irmãos Shubert, donos de 60 por cento das casas de espetáculo dos EUA (um deles, Lee, levaria Carmen Miranda para a América). Por duas décadas Jolson manteve-se como uma espécie de rei do Winter Garden, teatro que existe até hoje na Broadway, agora com uma das passagens que o margeiam denominada “Al Jolson Way”. Ele lotava por vezes dois teatros, ao mesmo tempo, saindo de um para cantar uma canção em outro e voltar para o primeiro. Lançador de grandes compositores, sua voz fanhosa e seu fraseado inspirado no dos negros do jazz revelaram ao mundo, com “Swanee”, um jovem gênio: George Gershwin. Tudo o que cantava em teatro ou gravava em 78 rotações fazia sucesso. Al Jolson tornou-se o primeiro cantor a ultrapassar a casa dos dez milhões de discos vendidos.

Mas não foi apenas na música que ele se inspirou nos negros. Numa época em que só brancos tinham acesso aos palcos de Nova York, Jolson pintava a cara de preto para recriar os números de menestrel, uma das formas mais tradicionais do teatro musical negro.

Adotou o figurino mesmo em apresentações solo, fazendo dele uma de suas marcas. Embora outros artistas (Eddie Cantor, Bing Crosby, Fred Astaire e até mulheres como Doris Day) eventualmente fizessem o mesmo, o que era aceito, foi Jolson quem ficou como símbolo e alvo dos que passaram a ver no expediente um deplorável pastiche racista. O blackface foi praticamente extinto nos anos 60.

A popularidade fez dele a escolha lógica para “O cantor de jazz”, historicamente o primeiro filme falado (parcialmente falado, digase, já que na maior parte usa legendas de tela inteira, como nos filmes mudos). Fora o avanço tecnológico que representa, há pouco nele a recomendar, nem mesmo Jolson cantando a contagiante “Toot, toot, tootsie”. Este, digamos, “clássico”, que de jazz não tinha nada, abre a coleção.

Em “O meninão”, ator faz papel de jóquei negro, com carapinha

No filme seguinte, “A última canção/The singing fool” (1928), os diálogos também estão em legendas de tela inteira. Outro sucesso. Das canções escritas pela famosa trinca Henderson, Brown & DeSylva, uma, “Sonny Boy”, foi escrita quase como uma paródia das canções ultramelodramáticas do tipo “My mammy”, que Jolson lançara em 1918 e reprisara em “O cantor de jazz”. Mas o público levou-a tão a sério que um milhão de partituras para piano foram vendidas em menos de um ano.

“Falando de canções/Say it with songs” (1929) foi o primeiro grande fracasso de Jolson, que recebeu por ele o cachê recorde de US$ 500 mil. Nada se salva, principalmente “Little pal”, tentativa frustrada de repetir “Sonny boy”, cometida por Henderson, Brown & DeSylva.

Dois filmes de Jolson estrearam em 1930: “Querida mamãe/Mammy” e “O meninão/Big boy”. O primeiro deles fecha a primeira caixa, e o segundo abre a segunda. Jolson, que recorrera ao blackface em “O cantor de jazz”, volta a ele em “Querida mãe”, no qual recria, com um mínimo de fidelidade, um número de menestrel. Há uma seqüência filmada em cores, e as canções são de Irving Berlin, destacando “Let me sing and I’m happy” e “Yes, we have no bananas”. Em “O meninão” Jolson vai mais longe: faz o papel de um jóquei negro, de carapinha e tudo.

Em “Um lugar para cantar/Wonder bar” (1934), ele é o dono de uma boate de Londres. Nenhuma canção memorável resultou das escritas pelos talentosos Harry Warren & Al Dubin. No elenco, entre outros, Dick Powell, que formaria com Ruby Keeler, então senhora Jolson, o par romântico de alguns dos espetaculares filmes de Busby Berkeley.

Filme biográfico, nos anos 40, foi dublado pelo próprio cantor Keeler e Jolson só fariam um filme juntos, “Cassino de Paris/Go into your dance” (1935), o penúltimo da coleção. Embora bem-sucedido comercialmente, com boas canções de Warren e Dubin, entre as quais “About a quarter to nine”, o filme não foi o bastante para convencer Jolson de que deveria trabalhar novamente com Keeler. Temia que, passando a ser a metade de um show de marido & mulher, perdesse a individualidade. Que seria preservada sem o mesmo êxito em “Canta e serás feliz/The singing kid” (1936), seu último trabalho para a Warner e fecho da segunda caixa. Embora os compositores fossem do primeiríssimo time da música americana — Harold Arlen & E.Y. Harburg — nenhuma canção sobreviveu ao filme.

Pode ser que as duas caixas operem o milagre de ressuscitar Al Jolson. Mas, como milagres não acontecem todo dia, sobretudo com a mesma pessoa, Jolson já teve o seu há 60 anos, quando um filme sobre sua vida chegou às telas com Larry Parks recriando fielmente seus gestos e passos (inclusive a cara pintada), mas dublado na voz pelo próprio cantor. O sucesso de “Sonhos dourados/The Jolson story” (1946) foi tal que, três anos depois, estreava a seqüência “O trovador inolvidável/ Jolson sings again”, com o mesmo ator e a mesma voz. Já então, Jolson tinha voltado à tona, salvo milagrosamente pelo primeiro filme (Oscar de trilha sonora e indicação de Parks ao de ator). Pouco depois Jolson morria e começava a ser esquecido.

Fonte: O Globo.

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