Rio, RJ – Off-Tap – Sweet Charity Estréia Hoje

Reportagem de capa do Segundo Caderno de O Globo de ontem, 19.04.2007, sobre a estréia de hoje, 20.04.2007, no Rio:

Na raia do Rio
Às vésperas de estrear na cidade, Claudia Raia afina sua ‘Sweet Charity’

(Rodrigo Fonseca, com fotos de Simone Marinho)

Frase-chave dos preparativos finais para a temporada carioca do musical “Sweet Charity”, em cartaz a partir de amanhã, no Vivo Rio:

— Tá feliz?

Das 19h à 0h de anteontem, ela passou várias vezes pelos lábios de Claudia Raia. Foi pisar na sede do Ballet Dalal Achcar, na Gávea, para passar em revista seus movimentos com os bailarinos, e a atriz, titular e força-motriz da remontagem feita pela dupla Charles Möeller e Claudio Botelho do sucesso da Broadway de 1966, meio sem perceber, emendou um “Tá feliz?” no outro. Era o primeiro ensaio dela com a equipe no Rio, passados 15 dias do encerramento da carreira do musical em São Paulo, inaugurada em setembro, no Citibank Hall, e mantida com casa lotada até o dia 1odeste mês. Notória por sua disciplina, como frisava o coreógrafo Alonso Barros, que deu uma pausa em sua carreira na Europa para trabalhar no projeto de Möeller e Botelho, ela chegou apreensiva. Atenta a imperfeições. Suas — “Esse passo tá certo, Alonso?” — e dos colegas — “Tudo é intenção. Movimento sem intenção não é nada”, aconselhava a um ator.

— A parada nas apresentações atrapalha. Mas a Claudia já tem todo um processo de trabalho e assimila bem — elogiava Alonso Barros, nativo de Campinas como Claudia e colega dela em “Chorus line”, musical de estréia da atriz, em 1983.

Horas antes, no estúdio Jam House, no Jardim Botânico, ao testar a garganta para o canto, com a preparadora vocal Vera Canto e Mello, os 13 integrantes de sua orquestra e com Botelho, supervisor musical da cruzada amorosa da prostituta Charity Hope Valentine, a preocupada interrogação que Claudia repetiu noite afora veio mascarada em um “A gente só começa depois que eu der beijo em todo mundo”. Até o delicado “Você não quer se sentar?” dirigido ao repórter do GLOBO trazia o “Tá feliz?” implícito.

— Sabe o que é? A gente passou por tanta dificuldade para vir para cá, por tantos problemas, que agora eu estou feliz de todos estarem aqui — conta a atriz, que fica em cartaz no Vivo Rio até 13 de maio. — Por pouco a orquestra não pôde vir.
Aliás, quase que o espetáculo inteiro não vinha, por falta de patrocínio. E, na última hora, conseguimos inverter a situação. Estamos com 74 pessoas aqui, todas disponíveis para o projeto, e nenhuma deles tem a obrigação de ter por “Sweet Charity” o mesmo amor que eu tenho. Se vieram para a minha cidade, para viabilizar algo que é um sonho meu, o trabalho da minha vida, quero vê-los felizes. Toda a equipe.

Relaxa, Claudia! Felicidade se vê estampada na cara do elenco e dos músicos. Talvez a equipe técnica plantada desde a meia-noite de domingo no Vivo Rio, transformando o palco da casa de espetáculos na Nova York da década de 60, não esteja tão sorridente quanto eles. Não por insatisfação, mas sim pelo esforço, inevitável em produções de grande porte — os custos da montagem de “Sweet Charity” estão em torno de R$ 500 mil por mês, incluindo mídia, transporte, hospedagem e alimentação dos 27 atores e bailarinos —, de carregar fios e regulando estruturas cênicas. Entre elas o elevador onde Charity conhece a potencial paixão de sua vida: o contador Oscar Lindquist (vivido pelo ator Marcelo Médici).

— Em São Paulo, no dia da estréia, o elevador não subia. Você acredita nisso? Improvisamos durante uns cinco minutos e nada… Durante 45 minutos, muito para uma peça como a nossa, que tem três horas, ele ficou parado. Mas o elenco inteiro se mobilizou para fazer ele funcionar. Todo mundo ficou lá, torcendo. No fim deu certo — conta Claudia, cuja agenda profissional hoje se divide entre Charity e os ensaios de “Os sete pecados”, a nova novela de Sílvio de Abreu, para o horário das 19h, na qual viverá a vilã da trama.

Aulas com a filha para alcançar o “o olhar Disneyworld” de Charity

Estrela de homenagens à tradição do teatro de revista como “Não fuja da raia” e “Nas raias da loucura”, Claudia persegue Charity há anos. Menina ainda, assistiu à versão cinematográfica do musical escrito por Neil Simon, dirigida pelo criador da personagem, o coreógrafo Bob Fosse, com Shirley MacLaine. Diz ter visto 30 vezes “Noites de Cabíria”, filme de Federico Fellini, do qual Fosse compôs Charity. Assistente de Claudia desde 1991, Magali Elena, que a todo momento entra na sala de ensaio dos bailarinos com um copinho d’água para a atriz, diz que a paixão dela pelo papel é tanta que nem febre a tira de cena:

— Ela pode se machucar, mas continua no palco. Sua disciplina é tão grande que até a coxia do espetáculo tem de ser cronometrada. Se ela sai de cena para beber água, e a garrafinha dela estiver fora do lugar, atrasa a entrada. Atrasa tudo.

Há 17 anos, Claudia tentou conseguir os direitos para encenar “Sweet Charity”, mas já haviam comprado o texto antes. Na época, foi um lamento:

— Achei que havia perdido o trabalho dos meus sonhos. Mas como fala o Cacá Carvalho (ator paraense, o Jamanta de “Belíssima”): “Há malas que vêm de Belém”. Eu não tinha a experiência necessária. Charity é uma perdedora. Alguém sem autoestima, com um olhar que acredita em tudo. Não podia pegar esse perfil da versão da Shirley MacLaine, que era ingênua, por exigências da época. Sou muito alta, espaçosa. No meu tipo físico, isso podia fazer dela uma grandona boba. Fui aprender esse olhar Disneyworld observando a minha filha pequena. Tudo para chegar a uma Charity mais humana.

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