Rio, RJ – Off-Tap – Contemporâneo

Reportagem de Eduardo Fradkin na página 2 do Segundo Caderno do jornal O Globo de hoje, 05.07.2007.

Três espetáculos de dança chegam ao Rio hoje

Lia Rodrigues, Andrea Jabor e grupo catarinense estréiam suas criações em Copacabana, na Glória e na Tijuca

Três espetáculos de dança estréiam hoje em diferentes pontos da cidade. E um ponto da cidade estréia com um deles. É a Casa da Glória, uma construção colonial ao lado do Outeiro da Glória, que já foi sede do Viva Rio e agora passa a ser um centro cultural. Lá, a coreógrafa Andrea Jabor dirige (e faz uma pequena participação) em “Sala de estar — As cinco peles do samba”, com sessões de quintafeira a sábado até o dia 14, e de sexta a domingo, entre 27 deste mês e 12 de agosto. No Espaço Sesc, em Copacabana, a coreógrafa Lia Rodrigues apresenta “Encarnado”, estreado em 2005 na França e já visto em outros sete países, mas inédito aqui. As sessões vão de quinta a domingo, até o dia 29.

No Centro Coreográfico do Rio, na Tijuca, o grupo de dança catarinense Aplysia, dirigido por Valeska Figueiredo, apresenta “Möbius” de hoje até sábado. O espetáculo, estrelado por três bailarinas, tem por tema a percepção interna e o mundo externo, o eu e o outro.

O espetáculo de Lia Rodrigues também lida com a oposição entre o eu e o outro, mas a partir de questionamentos provocados pelo livro “Diante da dor dos outros”, de Susan Sontag. Como ela, Andrea Jabor buscou inspiração numa fonte alheia à dança, os desenhos do artista austríaco Friedensreich Hundertwasser. Para sua nova criação dentro da série “Sala de estar”, iniciada em 2002, Andrea fez audições durante um mês. Dos cem bailarinos que viu, escolheu sete, sete, inclusive uma ex-rainha de bateria da Viradouro. Iniciou os ensaios em fevereiro.

Vale a pena descrever como decorre o espetáculo. Às 19h, abrem-se as portas do casarão. Quem for chegando é convidado a tomar drinques (pagos) numa sala de estar, com um bar, poltronas, abajures e TV. O som ambiente é samba, mixado por Andrea e seu marido nas pickups.

— Às 20h, convidamos o público para o segundo andar, que é onde começa o espetáculo. As pessoas vão se sentar e ver a primeira parte, que dura uns 25 minutos. Depois, vão caminhar pela casa até voltarem voltarem para a sala de estar inicial, onde acontece a segunda parte, com duração de uma hora. A parte final, com dez minutos, é dançada no quintal da casa. Quando acaba, todos podem conversar com os bailarinos, tomar mais drinques e ouvir música — explica Andrea.

Em certos momentos do espetáculo, os espectadores poderão se levantar e circular, como durante uma cena que representa um baile, com maxixes e lundus. Nessa hora, também serão servidos drinques (dessa vez, grátis).

A trilha sonora é uma colagem de clássicos do samba, tirados da enorme coleção de discos de Andrea e do pesquisador musical Edi Heinz, seu marido. É na música que se encontra a interseção com os desenhos de Hundertwasser.

— Ele sugere que o homem é constituído por cinco peles: a epiderme, a roupa, a casa, a identidade e, por fim, o cosmos. Parti desse conceito para pensar o samba como as peles. Quis fazer uma releitura do samba, que é algo tão familiar aos cariocas, dando-lhe roupagens e contextos diferentes — alega a coreógrafa, que pela primeira vez encena algo dentro de uma casa. — Já botei bailarinos para dançar dentro, sobre e ao redor de um carro na rua, em “Arqmóvel”, de 2001.

Em “Encarnado”, de Lia Rodrigues, o espaço cênico é bem mais sóbrio: uma sala, sem cenário, no Espaço Sesc. Música, tampouco há.

— Durante o processo de criação, usamos música, sobretudo de Bach. Mas, no fim, o conteúdo estava tão forte que a trilha era desnecessária. Quanto aos cenários e figurinos, eu sabia desde o começo que não seriam necessários. Peguei o dinheiro que seria usado neles e investi numa reforma do galpão da Casa de Cultura da Maré (da ONG Ceasm), onde sou residente há quase três anos.

“Encarnado” foi criado entre 2003 e 2005, nesse galpão, e depois levado à França, onde estreou. O ambiente violento do Complexo da Maré ajudou no desenvolvimento da obra, inspirada no livro de Susan Sontag.

— Seguimos caminhos que a leitura nos apontou e lidamos com questões como: O que sentimos diante da dor dos outros? Como essa dor nos afeta? Como a nossa própria dor nos afeta? O que nos toca ainda? O que nos move e em que direção? Será ainda possível se aproximar do outro, tão diferente de nós mesmos? — cita Lia.

A verba para a realização do espetáculo veio de instituições européias. Lá fora, o título é “Incarnat”, de fácil entendimento em qualquer língua.

— É um conjunto de quadros, como numa exposição. Trabalho com fragmentos, mas há um conceito que atravessa a obra toda. Sempre penso em (Francis) Bacon e Lygia Clark quando começo um trabalho — revela Lia.

Lia Rodrigues Companhia de Danças – “Encarnado”
Espaço Sesc – Mezanino:
Rua Domingos Ferreira 160, Copacabana – (21) 2547-0156
Qui e dom, às 20h. Sex e sáb, às 21h30m.
R$ 3 (comerciários) e R$ 12 (meia-entrada para estudantes,
classe artística e maiores de 60 anos).
Até 29 de julho. 16 anos.

Cia. Arquitetura do Movimento “Sala de estar – As cinco peles do samba”
Casa da Glória:
Ladeira da Glória 98, Glória – (21) 8150-0819 (informações)
Qui a sáb, às 20h. R$ 10. Até 12 de agosto. 10 anos.

Aplysia Grupo de Dança – “Möbius”.
Centro Coreográfico do Rio de Janeiro:
Rua José Higino 115, Tijuca – (21) 2570-1247
Qui a sáb, às 20h. R$ 10. Até amanhã. Livre.

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