Rio, RJ – Off-Tap – Dancing Eldorado

Do Segundo Caderno de O Globo desta segunda, 30.07.2007, sobre a peça “Dancing Eldorado:

Nos bons tempos do puladinho
(João Pimentel)

Pouca gente sabe que o casarão da Rua do Teatro 37, na Praça Tiradentes, onde hoje funciona o Centro Cultural Carioca, já foi um animado dancing, repleto de atrações artísticas, malandros e taxi-girls que complementavam seus salários de manicure, empregada doméstica e funcionária pública dançando um puladinho ou um cruzado no salão. Pois, como uma volta no tempo, a companhia de dança que leva o nome da casa, criada pelo dançarino e coreógrafo Isnard Manso, juntou histórias de antigos freqüentadores, pesquisou o repertório, o vestuário e até comerciais dos anos 1940 e 1950.

O resultado é “Dancing Eldorado”, espetáculo em cartaz lá às segundas e terças-feiras, que mistura dança de salão, teatro e muita música, calcado na simplicidade, que de forma despretensiosa ganha o público. Este, por sinal, participa diretamente do espetáculo, seja dançando ou cantando canções como “Carinhoso”, que Pixinguinha tocou naqueles salões e que ganhou letra de Braguinha — outro freqüentador assíduo do dancing — por encomenda da então primeiradama, Alzira Vargas, mulher de Getúlio.

No vídeo, personagens que freqüentavam o dancing

Como em qualquer festa que se preze, a primeira providência foi abrir o salão para os dançarinos. O espetáculo começa com depoimentos curiosos como o do músico Joventino Marcelino, que sempre aparecia no dancing e se incorporava à orquestra com seu pandeiro para filar o almoço dos músicos. Já Alfredo Figueira Galhões, pai do diretor musical da casa e do espetáculo, também Alfredo, faz questão de ressaltar que o ambiente era ótimo e que as dançarinas não eram prostitutas.

A trama gira em torno de uma dançarina, Dinorah, interpretada por Daniela Cavanellas, que sonha ser Elizeth Cardoso (por sinal, a cantora trabalhou como dançarina antes da fama), e seus anseios por mudar de vida. Ela e suas companheiras de salão disputam os homens que chegam, especulando o que fazem e o que podem proporcionar para elas. O texto criado por Rodrigo de Roure é uma colagem despretensiosa de histórias colhidas sobre o local e funciona como elemento de ligação entre os bons números musicais.

Se o casarão já evoca o passado em seus janelões, no surrado piso de madeira e na parede de tijolos — descoberta por acaso quando os donos foram fazer obras antes da abertura da casa —, alguns protagonistas daqueles tempos participam do espetáculo. A dupla de cantores Paulo Marquez e Áurea Martins, ambos cantando muito bem, e o excelente trompetista Darcy da Cruz fazem parte da orquestra formada para o espetáculo.

Áurea Martins interpreta “Vida de bailarina”

Áurea, em seu primeiro número musical como crooner do Eldorado, interpreta “Vida de bailarina”, de Américo Seixas e Chocolate, música que melhor define as dançarinas de dancing:

“Os que compram o desejo /
Pagando amor a varejo /
Vão falando sem saber /
Que ela é forçada a enganar /
Não vivendo pra dançar /
Mas dançando pra viver”.

Paulo Marquez canta “Beija-me”, de Roberto Martins e Mário Rossi, e o bolero “Quizás, quizás, quizás”, de Osvaldo Farrés. Então o desavisado público é convidado para uma dança.

No intervalo, uma série sensacional de comerciais de televisão da época. Um deles explica o que é uma máquina de lavar, uma novidade por aqui da Westinghouse. Outro é de um tal de xampu seco da Van Ess. Já o surrealista sofá-cama Drago são três blocos independentes que podem virar até duas poltronas.

Na volta, o melhor número do espetáculo. O bar vira cenário para três malandros e um garçom, que tenta de qualquer maneira não ser enrolado por eles. Uma percussão improvisada por Naif Simões dá ritmo à coreografia.

O ator Paulo Mazzoni rouba a cena com personagens engraçadíssimos. Um deles está à procura de uma mulher de 30 anos e dá a deixa para Paulo Marquez cantar a clássica “Mulher de 30”, de Luiz Antônio.

— Essa é do tempo em que a mulher de 30 era quase coroa — brinca o cantor.

O espetáculo termina com um pequeno baile para público e dançarinos. Um programa com alma leve e musicalidade bem cariocas.

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